segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Na ESCOLA INDUSTRIAL e COMERCIAL de SANTARÉM - ano letivo 1960-61

Neste primeiro ano letivo, em termos de resultados
e aproveitamento, as coisas correram bem. Mas no inverno, depois de um duro dia de trabalho e de pedalar sob frio e chuva, para ir às aulas, não era fácil. Com a agravante de que, quando havia cheias no Tejo, por vezes tinha que passar por cima dos muros da Ponte da Asseca, com a bicicleta às costas, para não molhar os joelhos. Era difícil, mas naquela idade tudo se conseguia.
A pior noite de aulas da semana era ao sábado.
Depois de uma semana de casa-trabalho-casa-escola-casa… e na última hora de aula, apanhar com uma seca de Religião e Moral… era mesmo para duros. O que nos valia eram as cenas caricatas que sempre iam acontecendo por lá, pela praça, que sempre iam dando para a malta se divertir.
Por exemplo, com o Clementino e com o Pimenta, dois cromos escalabitanos que, de vez em quando, passavam em frente à Escola, com ares provocatórios. O primeiro era um amaricado, que fazia limpeza nas casas das senhoras e andava na rua de avental e chinelos de quarto, o outro batia mal e tinha a mania do judo. A notícia do dia, na Imprensa, era o roubo do paquete Stª Maria. Quando, à noite, no intervalo das aulas, o Pimenta passava por entre aquela turba de alunos, alguns diziam-lhe:
— Ó Pimenta! Nós sabemos que foste tu quem roubou o barco ao homem! Tu tem-lo escondido debaixo da cama! Entrega o barco ao homem, seu gatuno! — o Pimenta respondia:
— Seus carneiros! Daqui a pouco aplico-vos o golpe de judo nº 47 e vão ver quem é o Pimenta!
Mas voltando à Disciplina de Religião e Moral, esta, neste primeiro ano, foi-nos dada pelo padre Onofre. Um padre que não tinha o menor grau de sensibilidade para lidar com as pessoas. Em especial, com pessoas que trabalhavam durante o dia e acumulavam o esforço até ao fim da semana que, como era sabido, era precisamente ao sábado. Tinha mais um detalhe: é que, metade daquela gente eram pessoas casadas e com filhos. Era dever do padre ter tudo isso em conta e proceder em conformidade.
Mas não! Agora, assim à distância de cinquenta e tal anos, estou convicto de que o homem era um crente fanático, um fundamentalista, como hoje são apelidados alguns radicais que professam certos credos ou seitas de onde emanam. Ele, padre, em plena sala de aula, sempre que pretendia fazer vincar e dar ênfase às suas palavras, juntava as palmas das mãos, erguia-as ao céu e propalava qualquer coisa que, para ele, no seu propósito, tinha que entrar à força nas mentes dos pobres-diabos, daqueles alunos fatigados, que ali estavam, indefesos, à mercê daquele cromo.
Numa dessas noites de suplício, o padre Onofre ter-se-á apercebido de que um dos alunos estaria a dormitar, ainda que de costas eretas. De modo a poder confirmar essa sua suspeição, caminhou em direção à carteira do alegado indisciplinado e parou. Quedou-se por ali, a cerca de um metro de distância do alvo e, com uma caneta na mão, ensaiou uns movimentos na frente do aluno para ver se este reagia. Não reagiu e, por isso, estaria a dormir e não atento às rezas do prior.
O padre Onofre acordou o marginal e disse-lhe:
— Ponha-se já na rua! O senhor vem para aqui dormir e isto aqui não é sala para dorminhocos!
O aluno, Leandro de seu nome, homem para uns
trinta anos, torneiro-mecânico em Santarém e residente na Póvoa da Isenta, levantou-se, tirou os óculos escuros da cara, escutou as palavras do professor e, por fim, disse:
— O senhor não tem a menor competência para lecionar seja o que for! Passa o tempo da aula de mãos postas, a rezar e a afirmar que Deus fez, Deus aconteceu… Eu, com uma semana de trabalho no lombo, cansado quanto baste, venho para aqui com imenso sacrifício, para tentar evoluir e o senhor padre, insensível a tudo isso, exibe-se com cantilenas e discursos patéticos, mais próprio para miúdos da primária do que para trabalhadores-estudantes. Saio e saio já! Se aqui fico, ainda lhe mostro como é um homem!
No rescaldo, o padre fez a sua participação e o aluno Leandro levou oito dias de suspensão das aulas. Para que conste, não houve necessidade de ouvir testemunhas nem o culpado, como era de esperar.
Toda a gente falava de um padre à maneira, que também dava aulas de Religião e Moral ali na Escola de Santarém. Não sei onde é que ele parava, mas a mim, à minha turma, tinha-nos calhado o pior de quantos padres pudessem existir à superfície da Terra.

No início do segundo ano nem queríamos acreditar!
O nosso novo professor, dessa maçuda Disciplina, era mesmo o tal padre de quem tanto falavam os outros, das outras turmas. O padre Nobre era o que nos tinha calhado neste ano e era esse mesmo quem nós queríamos. Que Deus nos livrasse do Onofre!
Logo na primeira aula, deu para ver que estávamos
com a nossa gente! O homem, o padre e o professor eram de uma singeleza extrema. Falava-se de Deus e do Diabo, do Bom e do Mau, do Melhor e do Pior... enfim, falava-se de tudo. Ou melhor: ele, o padre é que falava de tudo. Nós, alunos atentos e disciplinados, só botávamos discurso quando isso nos era solicitado.
O padre abordava todas as áreas da vida quotidiana, sem exceção. Ele, sim, era um humanista bem entrosado na realidade.
Lá mais para o fim da aula, quando o teor da conversa assim o permitia, ele não se coibia de abordar outros temas, tais como o Benfica, ou a fazer a apologia dos dotes das beldades da sétima arte, como Brigitte Bardot e Sophia Loren. Ele era o máximo! De tal modo que, quando tocava a campainha para a saída, todos achassem que ainda era cedo para acabar com aquela aula. Mas era mesmo o fim. O tempo de aula tinha passado a correr.
Para melhor definir o caráter deste padre, conta-se que, num domingo à tarde, quando ele procedia às
exéquias de um funeral, no Vale de Santarém e quando o cortejo fúnebre passava em frente a uma taberna, de porta entreaberta, com um freguês a espreitar para a rua pela abertura, perguntou-lhe o padre, com voz suave, meio em surdina:
— Ó chefe, quantos há? — e respondeu o freguês:
— Há um a zero!
Esta resposta indicia que o freguês da taberna já
sabia que o padre era benfiquista.
O relato do jogo do Benfica ouvia-se ali em plena
rua e ele, embora padre, como grande benfiquista que era, mesmo em pleno ato litúrgico não queria alhear-se do resultado do seu clube.

Extrato do livro "DEGRAUS E MARCOS DA VIDA" da autoria de ZéKarias; edição da Chiado Editora.

Texto escrito ao abrigo do A.O.

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